A cabeça do “cidadão de bem”

Quando os Mamonas Assassinas morreram, lembro de ter ouvido de uma pessoa: “você vai ver quando fizerem autópsia desses corpos… vão ver que estavam todos drogados. Eles é que deviam estar pilotando o avião, cheios de droga… Por isso aconteceu o que aconteceu”.

Levei um susto, na época, pois era uma pessoa que eu considerava – e ainda considero – completamente “do bem”, um grandioso exemplo. E hoje tento entender porque ela teve esse raciocínio, imaginando, talvez da própria cabeça, uma acusação sem nenhum indício contra quem ela não conhecia. Provavelmente, veio à sua cabeça certo alívio ao saber que aquela banda, que fazia as crianças cantarem em público as piadas e palavrões que os adultos só lhes permitiam à boca pequena, havia morrido. E, uma vez que era muito ousado cogitar, como depois fez certo pastor, que se tratava de um castigo divino, a pessoa tentou elaborar razões para ligar a “depravação” daqueles rapazes a uma provável causa do acidente. Uma morte tão violenta tinha que ter uma explicação…

É como, aliás, estamos vendo acontecer por aí, com a morte de Marielle. Ao saber que uma defensora dos tais “Direitos Humanos” havia sido assassinada, as palavras “bem feito” certamente foram as primeiras a vir à mente de muita gente, que se acha injustiçada devido a tais defensores. E, para evitar o conflito psicológico que essa sensação traz, tentam primeiro minimizar (“todo dia morre tanta gente e ninguém se importa”), depois ironizar (“defendeu bandido, agora foi morta por eles”), e agora elaborar teorias para a provável execução (“aposto que foi acerto de contas do tráfico”). Alguns chegaram ao nível de criar e compartilhar mentiras pelas redes, denegrindo a imagem de alguém que sequer conheceram. Nem importa querer saber se, além de algumas atitudes provavelmente questionáveis, ela teve também algum comportamento de exemplo, que merecesse louvor…

Não é difícil, para uma mente sensata, verificar que nenhuma dessas afirmações apresenta fundamento (principalmente a da autoria do crime, que por hora permanece desconhecida), e muitas delas acabam por ser verdadeiramente cruéis à memória da vereadora e principalmente à sua família (incluindo a filha pequena), que certamente já estaria sofrendo assustadoramente caso tivesse que lidar somente com a morte violenta, mas ainda tem que lidar com milhões de pessoas desferindo os piores xingamentos do mundo a um ente querido que não está lá para se defender. Não sei com vocês… mas, se fosse com um familiar meu, mesmo se ele tivesse sido a pior das pessoas em vida, não seria algo nada fácil de lidar.

E, aí, vem o mesmo espanto ao observar que quem pratica esses atos é, por vezes, gente “do bem”. Gente até com bons princípios, de valores, mas que cai facilmente na onda de quem não tem qualquer pudor ou caráter de difamar gratuitamente a alma de alguém que não se conhece.

E fica a pergunta. O que, meu Deus, faria essa gente boa cair nessa onda tão fácil?… Por que, por vezes, é tão difícil pedir-lhes ao menos cuidado?…

A resposta, creio depois de um pouco refletir, pode estar no senso de justiça. No que se entende como justiça…

Há, sim, moralistas despudoradamente hipócritas, sem receio algum de apontar o cisco no olho do outro quando sua vista está coberta por uma trava. Mas há também aqueles que se consideram, realmente, como “justos”. Que ralam pra fazerem tudo certinho, construir a família com dignidade, honestidade, suor. E que, por isso mesmo, se indignam ao verem tanto “vagabundo” se dar bem sem esforço. Ver alguém tirar-lhes, num segundo, o celular que trabalharam pra pagar às prestações. E consideram-se profundamente injustiçados por terem que, no fim, pagar esse pato, mesmo tendo lutado tanto pra cumprir o que manda a cartilha do “cidadão de bem”…

Para eles, quem atrapalha o seu suado projeto de construir uma vida digna não merece perdão. Tem que ser execrado imediatamente da sociedade, para que sirva de exemplo e não mais tenhamos que lidar com essa raça de malandros…

Bem, mas lamento que a resposta da realidade possa ser um tanto quanto frustrante.

A verdade, a triste verdade, é que a vida não é justa. Ao menos, não pela visão de justiça que tantos temos…

Sim, vivemos num país de extrema impunidade. E creio que, apesar de estarmos tendo sinais inéditos de que talvez alguma coisa possa enfim estar começando a mudar (afinal, se até políticos e grandes empresários estão sendo presos, quem pode afirmar que um ladrão de galinha continuará impune?), certamente ainda há um longo caminho a se percorrer. Mas, mesmo nas nações mais desenvolvidas, com a justiça mais impecável do mundo, sonhos suados ainda são friamente ceifados, todos os dias.

É alguém que tem um surto psicótico violento e mata um pai de família.

É alguém que passa mal ao volante e atropela uma criança no colo da mãe.

É alguém que simplesmente resolve ser mau e dá uma paulada na cabeça do outro pra ter dinheiro pra comprar um cigarro.

É alguém que morre porque estava caminhando na praia e do nada vem uma onda e bate sua cabeça contra uma pedra, como aconteceu com uma amiga. Uma alma extremamente bondosa, aliás…

Tudo isso vai sempre continuar acontecendo, e não há prisão ou cadeira elétrica que resolva. Essa é a triste realidade.

Sim, é claro que temos que lutar com todas as forças para que essas coisas sejam cada vez menos frequentes. É claro que, quando for necessário punir, devemos fazê-lo com firmeza para que suma da nossa sociedade a noção de que é possível vencer sem honestidade. E para que quem erre tenha a possibilidade de se redimir…

Mas não é só isso que vai garantir que a vida seja justa para você.

Principalmente – acrescento – se você for cristão.

Sim… pois a vida não foi “justa” para Jesus, nem para todos os seus apóstolos, que podem ser considerados “cidadãos de bem” exemplares (exceto, talvez, pelo fato de andarem com vagabundos e prostitutas… Mas ok, isso não vem ao caso).

A vida não foi “justa” para aquele filho mais velho, que fez tudo certinho e viu o irmão mais novo, que saíra desembestado pela vida gastando o dinheiro da família, ganhar a festa que ele nunca teve.

A vida não foi “justa” para aqueles trabalhadores que ficaram o dia inteiro na labuta, e no fim ganharam o mesmo salário de quem só chegou na última hora.

A vida não foi “justa” pra Madalena, que foi a “apóstola dos apóstolos” (como disse Santo Tomás) e ainda é lembrada por muitos como prostituta.

E nem foi “justa” pro marido da mulher adúltera, que levou um baita chifre, todo mundo ficou sabendo e no fim aquele cara só virou e falou pra ela: “vai e não peques mais”…

É que a justiça de Deus – do Deus de Jesus – é outra. É uma justiça que vem da misericórdia.

Sem entender o grande mistério que é essa tal misericórdia, não se entende Jesus. E, digo: não é nada fácil… O tal “defender o pecador sem deixar de condenar o pecado” é dificílimo. Principalmente quando se sabe que a primeira parte (defender o pecador) é mais importante que a segunda…

Mas é preciso tentar. Tentar ser misericordioso até com quem te provoca ódio, com quem você acha que defende bandido, drogado, vagabundo…

Até porque, segundo Jesus, quem está mais próximo do céu não é o “cidadão de bem” que se acha justo, mas o vagabundo arrependido.

Foi ele quem disse… não eu. E eu, confesso, demorei muito a entender isso.

Mas é assim. Queiramos nós ou não.

E, digo: é também libertador quando, nem que seja por alguns instantes, por algum motivo nos sentimos “vagabundos”… e descobrimos que alguém, apesar de tudo, tem o amor necessário para nos acolher.

Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca vagabundou…

(Gabriel Resgala – 20/03/2018)

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