Microbem – o bem do dia a dia!

Na exortação apostólica que acabou de publicar, a Gaudete et Exultate, o papa Francisco nos convida a vivenciar a chamada “classe média da santidade”, ou seja, o caminho do bem acessível a todos, no dia-a-dia. Em sintonia com esse espírito, republicamos e transcrevemos um vídeo histórico do Vivo pela Vida, em que nosso amigo Renato Lopes (da Aban e do Instituto Humana) fala sobre o conceito de “Microbem”.

Veja o vídeo ou, se preferir, leia a transcrição abaixo. Imperdível!!

(se necessário, ative as legendas!)

Gabriel – Olá galera! O Vivo pela Vida é especial hoje, com um convidado especial, o meu amigo Renato Lopes. Ele trabalha principalmente com ações sociais, tem o “Grupo Amigos”… Mas hoje eu chamei ele aqui pra falar com a gente sobre um tema interessante, que me deixou bem intrigado: o conceito de “microbem”. Foi um conceito que você elaborou, ou que já surgiu e você só deu um nome?…

Renato – Assim, o conceito, com esse nome, nós é que estamos dando esse nome pra ele. Na verdade a gente está nomeando algo que já existe, que está aí. E o fato de dar um nome tem um significado muito interessante porque chama a atenção, leva à reflexão.

Gabriel – E o que é o “microbem”? Como você definiria rapidamente o “microbem”?

Renato – Bom, o “microbem” é quando, intencionalmente, nós tomamos a decisão de aproveitar todas as oportunidades da nossa vida para estimular o bem.

Um dos grandes desafios que nós temos hoje é o que a gente pode chamar do “bem focal”, que é quando a pessoa concentra todo desejo de vivência do bem dela numa coisa única. Então, por exemplo, ela faz parte de um projeto social e entende que o fato de fazer parte daquele projeto social, uma vez por semana, uma hora, ali ela despeja todo o desejo de bondade dela, e por isso no resto, nos relacionamentos, no trânsito, no trabalho, no estudo, na faculdade, ela não precisa tanto desenvolver isso, porque ela já está focando o “bem” dela naquilo. Então, na verdade, é como se ela vivesse um “espasmo” de solidariedade naquele momento e, no resto, ela pode tocar a vida passando em cima de todo mundo, não precisando ser solidária.

É essencial que você perceba que o bem não é uma coisa pra ser vivida quinta de tarde. Mas o bem, quem quer ser do bem, tem que integrar o bem em todas as suas relações.

Gabriel – Seja, às vezes, dando um “bom-dia” para alguém. Seja, às vezes, [quando] você tá passando de carro, e alguém te fecha, e você, em vez de soltar um palavrão…

Renato – Como é que você reage!

Madre Teresa vai dizer o seguinte: o bem não está só no que você faz, mas no “como” [“O bem não é só o que se dá, mas o amor com que se dá” –  Santa Teresa de Calcutá]. E Paulo vai dizer isso, né: Mesmo que eu entregasse os meus bens aos pobres, sem amor eu nada teria” (cf 1Cor 13,3). Porque é o “como”!

Você pode dizer: “ah, mas, eu já, no sinal, eu ajudo as pessoas que me pedem”. Tá. O microbem vai refletir o seguinte: “como você tem feito isso?” Como?

Porque eu comecei a notar, muitas vezes, que mesmo as ações do bem que eu fazia elas eram frias, no sentido de estabelecer um diálogo, uma relação de respeito, de identificação, de perceber o outro! Que muitas vezes eu nem percebo. Eu ajudei sem o perceber.

Eu já vi belíssimos projetos, que tecnicamente eram muito bons, que estavam completamente contra o assistencialismo, eles trabalhavam a emancipação, trabalhavam o protagonismo… Então, eram projetos de alto nível. Mas e as relações, e o cuidado, e o carinho, a delicadeza, e o respeito do outro?… Isso ficava um pouco à parte.

Então, a ideia de “micro” ultrapassa muito, porque ele cabe em qualquer local. Ele tem que caber todos os momentos, em todas as instâncias.

Gabriel – Não é “micro” de menor que o macro, de menos importante que o macro. Mas é “micro” de individual, de cada um, na sua posição…

Renato –  Da minha parte, neste momento. Que depois vai me levar a outras ações, de outras parte somadas. Ou seja, o bem “macro” é resultado desse bem “micro”.

Anne Frank vai dizer uma coisa belíssima, que tem a ver com o microbem: “Como é maravilhoso que ninguém precise esperar um minuto pra começar a fazer deste mundo um lugar melhor” (Anne Frank). Ela trabalha a ideia de que não importa onde você está.

Não importa a situação que você está vivendo. Não importa o momento da sua vida. Neste momento você pode, e você tem diversas oportunidades de fazer o bem!

Por isso, o microbem, eu vou dizer que ele começa pelo olhar. Enxergar essas oportunidades é o primeiro passo!

Vou te dar um exemplo interessante, que pra mim é o mais marcante nesta lógica. É o exemplo que eu acompanhei de um preso, que tinha cometido um crime, vivendo toda a situação caótica de dentro do sistema prisional, que fica sabendo que tinha um outro preso, idoso, que tinha um problema grave de saúde, que precisava de cuidados intensos, e que não tinha isso no hospital daquela cidade. E ele foi voluntário, durante dois anos, pra ir pra cela desse senhor, cuidar desse outro, trocar bolsa de colostomia, dar banho de leito nele.. durante dois anos!

Então, olha que interessante… Por mais que isso, pra mim, não seja uma novidade, mas…

Gabriel – É marcante, né?

Renato – É marcante! E você perceber que, você dentro de uma cadeia, dentro de uma cela…

Gabriel – Que é um lugar horrível, né?

Renato – E que ele poderia ter todos os motivos pra dizer o seguinte: “Quando eu sair daqui eu vou começar a fazer o bem”. Não, ele não disse isso. Ele disse assim: “agora eu vou começar!”

A vocação para o bem é uma vocação fundamental. Ou seja, todos nós temos uma vocação que é a vocação à vida, e logo depois da vocação à vida tem a vocação ao bem, ou seja, nós somos naturalmente chamados pra fazer o bem. Pra fazer deste mundo um lugar melhor.

Gabriel – Qual é a base que vocês têm pra lançar essa teoria, de que todo mundo é vocacionado para o bem?

Renato – Tem um pesquisador chamado Marcos Arruda, ele vai dizer algo muito interessante. Ele vai dizer que não foi a agressividade ou a competitividade o que fez com que a espécie humana dominasse as outras espécies. [“O ‘diferencial evolutivo’ que permitiu à espécie humana tornar-se dominante sobre todo o planeta não foi a agressividade nem a competitividade, mas a sociabilidade e a cooperação” – Marcos Arruda].

Gabriel –  Até porque nós temos predadores muito mais fortes que nós.

Renato – Isso mesmo. Então, o que fez com que a espécie humana dominasse essas espécies? Foi a cooperação e a solidariedade. Ou seja, na medida em que a espécie humana, então, começa a trabalhar em conjunto, dividir tarefas, se ajudar mutuamente, ela domina as outras espécies.

O que nós estamos refletindo aqui é quando nós começamos a sistematizar isso. Ou seja, nós começamos a assumir, não só como algo que faz parte da minha cultura, mas como algo que eu quero desenvolver em mim. É como se eu assumisse essa vocação do bem.

Gabriel – A gente fica com vontade de fazer algo grandioso, né? A gente fica pensando: “a gente tem que mudar a política, a gente tem que mudar o sistema”… E, na encíclica Deus Caritas Est, do Bento XVI, eu li uma coisa que achei interessante. Muitas vezes o marxismo, o socialismo, as teorias mais revolucionárias, elas pregam que você não tente ajudar o pobre neste momento, porque, você ajudando, estaria amenizando a situação dele e tirando o sentimento de revolta dele. Então eles pregam que o ideal seria deixar ele desenvolver o sentimento de revolta com aquilo pra depois vir a revolução e mudar tudo de uma vez. E aí Bento XVI vai falar: “mas isso é contra até o sentimento de solidariedade humano”. [“Uma parte da estratégia marxista é a teoria do empobrecimento: esta defende que, numa situação de poder injusto, quem ajuda o homem com iniciativas de caridade, coloca-se de fato ao serviço daquele sistema de injustiça, fazendo-o resultar, pelo menos até certo ponto, suportável. Deste modo fica refreado o potencial revolucionário e, consequentemente, bloqueada a reviravolta para um mundo melhor. […] Na verdade, a humanização do mundo não pode ser promovida renunciando-se, de momento, a comportar-se de modo humano” – Bento XVI]. Isso vai contra a sua humanidade, chegar a ver uma pessoa passando necessidade e deixar de ajudar aquela pessoa.

Renato – Eu também desejo uma revolução. Eu também desejo de mudança de sistema. É claro que eu desejo isso. Só que pra mim está claro que não adianta eu exigir ou desejar o marco se eu não consigo trabalhar a questão do micro. Eu faço diversos trabalhos, eu trabalho com macroprojetos, eu estava lá, negociando ontem, um projeto que vai trabalhar em dois países. Mas, assim, eu acredito na força e na importância dos microprojetos.

É verdade que a gente precisa estimular essa indignação no outro. É verdade que nós temos que lutar contra o assistencialismo. Tudo isso eu defendo. Só que isso não pode ser motivo para que eu deseje o sofrimento do outro. Porque, na verdade, essa teoria vai dizer: “não, vamos deixar o outro sofrer, tomara que sofra bastante, porque sofrendo ele acorda mais rápido”. Paulo Freire propõe uma forma de você ser solidário e, ao mesmo tempo, provocativo. Provocar o outro a essa indignação. Mas não se negando a ser solidário a ele. [“O que importa, realmente, ao ajudar-se o homem, é ajudá-lo a ajudar-se” – Paulo Freire].

Gabriel – É muito mais fácil você se comover com a fome na África, com as coisas distantes; agora a pessoa que tá na porta da sua casa, às vezes, que você pode fazer algo por ela, aquilo é mais desafiador pra você. O envolvimento no microbem instiga, desafia muito, e é difícil quando você está numa sociedade muito complexa.

Renato – O problema das grandes cidades é que elas acabam dissimulando algumas ideias que atrapalham muito o bem como todo. Um exemplo, você fica pensando assim: “Ah não, não posso dar carona não, porque eu ouvi dizer que outro dia alguém deu carona e foi assaltado.” “Ah não, não vou distribuir esse alimento não, porque ouvi falar que teve um cara que deram alimento pra ele, ele passou mal e processou a pessoa”. É preciso vencer esse temor!

O microbem nos convida a acreditar num mundo melhor. A acreditar na força do bem, a acreditar que o bem vale a pena! A acreditar que esse risco não é tão alto assim, não. E a ser capaz de correr algum risco.

A gente corre risco pra tudo! Você, pra chegar aqui hoje, teve que atravessar uma rua, teve que… você correu riscos! Engraçado esse outro mito que eu vejo, das pessoas só desejarem se envolver com o bem se o risco for zero. “Não, peraí, eu não quero correr risco nenhum”. Bom, se você não quer correr risco nenhum, amigo, você não devia nem ter vindo aqui bater esse papo e pensar nisso, porque você está correndo vários riscos.

É claro, eu vou tentar minimizar esse risco, sempre que possível. Mas vai chegar um momento em que eu vou chegar num ponto em que vai ser o seguinte: “ó, daqui não dá pra diminuir mais”. “Bom, e qual é esse risco? Deixa eu olhar pra ele. Não, vale a pena!”

Qualquer coisa tem risco. O bem tem risco, o microbem tem o seu risco. Só que o microbem, ele tem essa beleza de ser acessível no agora. Ele é acessível pra você. No seu agora! Eu não preciso esperar nem um minuto! Porque, no que eu estou fazendo agora, no que eu estou vivendo neste momento, em cada uma das minhas experiências do meu cotidiano, eu posso integrar o desejo, e não só o desejo, mas a ação de produzir um mundo melhor através de uma opção do bem.

Você que lê este texto, e tá na sua casa, e tá num momento difícil, que não pode sair de casa, você que já é idoso, você que tá num hospital…

Eu vi outro dia uma moça muito legal. Ela foi internada num hospital, pra fazer uma cirurgia, e ela tinha que aguardar. Então ela estava bem, ainda, né? E o que ela fez? Ela saiu do leito dela

e foi visitar os outros leitos.

Gabriel – Bacana, né?

Renato – Microbem de alto nível!

Ela poderia pensar o seguinte: “mas eu é que estou precisando de visita! Eu tô aguardando a cirurgia, tô muito nervosa, tô…” Ótimo, pode ser uma postura, e é normal que ela ficasse nervosa, o problema não é esse. A questão é que ela saiu dessa postura, e percebeu o seguinte: “Mas pera aí, onde eu estou, eu posso fazer o bem!”

Gabriel – E o mais interessante é que eu aposto que o fato dela sair dela e ir fazer o bem fez muito mais bem pra ela também!

Renato – Claro, isso sem dúvida!

O importante é que isso não seja pesado. Que você não sinta, o tempo todo… “Peraí, o que eu deveria ter feito? Qual a minha obrigação?” Não é isso! Mas é que você fique mais antenado para as oportunidades que surgem ao seu redor de fazer a diferença.

Que, muitas vezes, passa por ficar ao lado… Fazer o bem, muitas vezes, não é falar, não é agir. É importante entender isso. Fazer o bem, muitas vezes, é estar ao lado. É se mostrar ali. É dizer o seguinte: “Olha, se você precisar de mim, eu tô aqui, cara”. Pronto! Mas isso abre um canal, uma porta. Eu preciso me colocar a caminho junto com você e é nessa caminhada que eu vou descobrindo em que momento eu posso ser útil. E de que forma.

Gabriel – Ninguém sabe, a princípio… Ninguém nasce sabendo como ajudar!

Tá ok, Renato. Muito obrigado!

Renato – Eu é que agradeço a oportunidade de estar aqui. Um abraço!

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