Aviões, elevadores e fé

Já pararam pra pensar no quanto é curioso que os meios de transporte mais seguros do mundo sejam justamente os que mais nos causam medo?

Elevador, avião, metrô, helicóptero… provavelmente você conhece alguém que tem medo, senão uma fobia intensa e estruturada, de algum desses transportes – ou possivelmente você mesmo o tenha. No entanto, as estatísticas são claras: no ano passado, a aviação comercial transportou nada menos que 4 bilhões de pessoas no mundo, com um número de acidentes fatais igual a ZERO. Isso mesmo: em 2017, foram quatro bilhões de pessoas em voos regulares e absolutamente nenhuma morte. Acredite, você está mais seguro com a Gol do que o Luciano Huck num jatinho particular!…

No caso do elevador, então, poderíamos talvez até pensar em um uma espécie de “índice negativo”: é um transporte que não só não te machuca, mas pode te proteger. Ele tem tantos dispositivos e freios de segurança que, se tudo der errado, o máximo que provavelmente pode acontecer é você ficar lá esperando um tempinho pelo socorro (contando, é claro, também com a sorte de não ficar preso com alguém inconveniente). Quietinho e seguro contra as quedas que poderia ter tido ao ir de escada, contra os assaltos e atropelamentos a que estaria sujeito ao andar na rua, e até em caso de desabamento do prédio. É sério: há pouco tempo um prédio desabou no Rio e um dos poucos sobreviventes foi um sujeito que se refugiou no elevador – caiu 9 andares e saiu sem um único arranhão!

Já sobre os índices de desastres com carro, moto, bicicleta, andar a cavalo ou a pé na rua… nem precisamos falar. Absolutamente todos nós conhecemos alguém que já sofreu um acidente desses, talvez fatal. Mas é difícil encontrar alguém que tenha medo de andar de carro – no máximo de viajar sob más condições, com um mau motorista, etc; e não de entrar num Celta pra ir dar uma volta na cidade. Se temos algum medo desses transportes, em geral é um medo saudável, embasado, que nos leva a buscar mais proteção. Ou até um medo insuficiente – pois ele deveria nos levar a nos proteger mais, já que ainda morremos tanto dessas coisas! Bem diferente, pois, do medo irracional e exagerado que costumamos ter dos transportes que envolvam alturas, mesmo eles sendo infinitamente mais seguros!…

De certa forma, me parece que essa discrepância pode ser explicada pelo fato do transporte vertical ser menos intuitivo pro cérebro. Ao vermos um passarinho ou até uma ave um pouco maior, nem é tão difícil acreditar que ela consiga voar; mas não um jumbo de quatrocentas toneladas. Se for de turboélice, então, pior ainda: a gente vê as “pazinhas” que vão ser responsáveis por levantar aquele trambolho do chão, e o cérebro entra em parafuso. É preciso certo exercício racional para ganhar confiança naquilo, na primeira vez em que nele entramos: lembrarmos da ciência, das estatísticas, da seriedade de quem nos disse: “pode ir, tem erro não!” Da mesma forma, num elevador, principalmente dos mais antigos. Não é fácil imaginar, de cara, que vai dar tudo certo naquele troço comandado só por botões, e que não vamos despencar lá de cima…

Tememos o que não conhecemos. E, para acreditar no que não se conhece totalmente, é preciso ter certa fé. Fé na ciência. Que não é, a meu ver, uma fé tão difícil de se ter: basta ver os aviões voando e os elevadores subindo pra crer que a coisa funciona. As realizações da ciência são muito claras. É graças à ciência que eu estou escrevendo aqui, no interior de Minas, e você está lendo em qualquer lugar do mundo através de um dispositivo que provavelmente tirou do bolso. No qual, se quiser, basta dar um toque pra me ver ao vivo e conversar comigo como se estivéssemos lado a lado. A ciência fez explodir a população mundial no último século de uma forma inacreditável, através da medicina, da engenharia de alimentos, da economia… Fez todo mundo viver mais, na média. Mas, fora da média, também fez milhões viverem menos: armas de fogo, bombas nucleares, armas químicas… até no poder de destruição a ciência é impressionante.

Na faculdade, tive a oportunidade de entender como a Estatística é uma ciência f*da. Todos desconfiamos, não sem razão, das pesquisas eleitorais, quando elas parecem não ser bem-feitas (intencionalmente ou não). Mas não nos damos conta de como são impressionantes as centenas de vezes em que elas acertam! Tá doido. Você entrevista 2 mil sujeitos na véspera ou no dia da eleição, e o resultado sai bem próximo do que 100 milhões digitaram nas urnas. Com base no que dizem 0,002% dos eleitores de um país gigante e tão diverso como o nosso, você prevê, com alguma precisão, o que todos os outros vão fazer. Bruxaria danada!!

Então, se a estatística me diz que elevador é seguro, não é fica difícil pra mim entrar num elevador. Ou mesmo num avião (depois, é claro, que você já se acostuma com a rotina do negócio e sabe que os tremeliques e turbulências são normais). Porque aprendi a ter fé na ciência – sabendo, é claro, de todos os limites que essa fé impõe; uma fé equilibrada, ponderada, que sabe sempre que a ciência vai me dar probabilidades, mas nunca verdades absolutas. Uma fé que, por isso mesmo, por ter seus limites e condições bem estabelecidos, não me é muito difícil.

Difícil mesmo, pra mim, é a fé em Deus.

Porque Deus não tem estatística, não tem probabilidade, não tem método estruturado, milhões de repetições de uma mesma coisa dando o mesmo resultado. Muito pelo contrário: o máximo que uma pessoa costuma discernir como mensagem divina é uma indicação pra tomar determinada direção. “Vai que dá!” Mas como vai ser, por onde vai passar, se vai ter desvio no meio do caminho e se no final “vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, isso a gente nunca sabe. E, não raro, no meio disso tudo vai bater a inevitável dúvida de saber se quem te indicou o caminho foi mesmo um ser superior ou tudo foi só coisa da sua cabeça…

É verdade que pra minha falecida avozinha, por exemplo, foi um pouco diferente. Ela passou a vida na roça, e quando viu um avião no céu pela primeira vez entrou em desespero pensando que o mundo ia acabar. O processo de ter fé na ciência, pra ela e pra muitas das pessoas no mundo, é algo diferente do que é pra mim. Pra quem não teve um bom estudo, não é simples acreditar em coisas complexas como as leis da aerodinâmica, as pesquisas eleitorais, as vacinas, o formato esférico da Terra. Mas, sinceramente, eu não saberia dizer se, por outro lado, isso tornaria mais fácil pra essas pessoas ter fé em Deus.

Sim, talvez seja mais fácil pra elas não duvidar. Se o mundo ao seu redor se resume a pessoas que creem em Deus, sem ideologias e cientificismos alternativos, não vai passar muito pela cabeça deixar de crer. Mas ter fé de verdade, de deixar a sua vida ser guiada por aquilo, em vez de usar o tal do Deus só pra justificar suas próprias convicções, mascarando aquela estranha fé em si mesmo… Isso independe de ter estudo ou não. Independe de não ter medo de avião e de elevador. Independe de tudo…

É por isso que no Cristianismo dizemos que a fé é um dom. Assim como qualquer dom, tem gente que tem mais facilidade de, uma coisa quase inata; já pra outros, é preciso se esforçar mais, treinar mais… e alguns talvez nunca consigam ter, sabe-se lá. Não há uma fórmula exata. E depende sobremaneira das experiências de vida que a pessoa tem ou teve…

Por isso, se ver alguém desconfiando da ciência, querendo colocar a fé em Deus no lugar, ou vice-versa… desconfie. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O conhecimento que a ciência vai te dar são pra pisar num solo um pouco mais seguro; mas não pra te dizer qual caminho seguir. Já a espiritualidade (religiosa ou não) faz o contrário: indica o caminho, mas não necessariamente o lugarzinho exato onde pisar. Isso, meu caro, só se descobre no dia-a-dia. Com muita sabedoria, jogo de cintura… e uma boa ajudinha da ciência.

Nesse aspecto, a fé da minha avó sempre me foi um exemplo. E quando posso entrar num avião, e ter aquela visão esplendorosa de tudo, lá de cima, por vezes me vejo imaginando a vó lá embaixo, olhando assustada aquele trambolho no céu pela primeira vez. Mas logo me lembro que, pela vida que ela viveu, hoje provavelmente ela está é lá em cima. Muito mais acima do que qualquer avião pode voar…

 

UPDATE [18/05/2018 – 15:40]: Escrevi este texto ontem, e publiquei hoje de manhã. E, agora à tarde, acabo de saber de saber que, por uma infeliz coincidência, acaba de cair um avião comercial em Havana, aparentemente com alto número de vítimas.

Acidentes aéreos chocam pela sua magnitude, pelo estrago que podem causar. Mas continuam, felizmente, sendo raros!

Rezemos por quem fica. Não é fácil! Como não é fácil para as famílias das dezenas de milhares de pessoas que morrem todos os anos em acidentes de carro…

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