O que é preciso saber sobre Jair Bolsonaro

Como sabem que sou alguém que tenta acompanhar a política de forma constante, não só no período eleitoral, como geralmente faz a maioria das pessoas (não exatamente porque eu goste… mas porque me lembro do ditado: “quem não gosta de política acaba sendo governado por quem gosta muito dela”), já há algum tempo amigos e familiares vinham me perguntando acerca dos candidatos à presidência. E eu dizia: “tem esse, esse, esse…”. Quando mencionava o Bolsonaro, perguntavam quem era, e eu explicava: “olha, é um bem radical, que fala isso, isso e isso”… aí a pessoa se assustava, e dizia: “cruz credo! Nesse nunca irei votar”.

Mas o tempo passava, a pessoa via o movimento em torno dele, a comoção do povo, a influência de algum amigo alucinado… e acabava vendo ele falar na TV, ou em algum vídeo na internet – tendo contato com todo o carisma do sujeito.

E depois vinha me falar: “então.. não é que eu apoie ele, mas… [e sempre tem um “mas”…], ele é o único que tem capacidade de mudar alguma coisa. É o único que fala as verdades que têm que se ditas, contra tudo o que está aí…”

Daí em diante o papo geralmente evolui pra eu perguntando por alguma proposta dele, a pessoa dizendo que não sabe, e eu explicando o que é realmente o que ele propõe, ou deixa de propor. Muitas vezes, ante a réplica “mas não é bem isso que ele quer, não é tão radical assim não”, eu mostro o seu plano de governo, ou um vídeo com as próprias palavras dele. E aí o papo se desvia pro esquema “bem, mas se você vasculhar o passado dos outros, também vai achar uns ‘podres’, umas falas exageradas, infelizes”… E assim vai indo, até em geral ela finalizar com o “mas se for ele contra o PT no segundo turno, não vai ter jeito. No PT eu não voto de jeito nenhum!”

E, quando eu digo que penso diferente, que contra o Bolsonaro, votaria em qualquer um, o olhar da pessoa geralmente se espanta. Me veem como radical…

Eu também, confesso, jurei pra mim mesmo, algumas vezes, que nunca mais votaria no PT – principalmente pela questão ética, pelos valores “culturais”, e também por ver no partido, atualmente, sinais autoritários perigosos. Mas acredito que Bolsonaro é uma das poucas pessoas que me fariam rever essa promessa, exatamente por causa dos mesmos valores: ética, cultura, família, autoritarismo. Tenho plena convicção de que, no que o PT é ruim, ele realmente consegue ser ainda pior

Tenho consciência de que não é uma posição extremista, apaixonada, influenciada pela mídia exagerada ou pelo discurso da esquerda. É uma posição de quem acompanha a atividade parlamentar do Bolsonaro há pelo menos sete anos, quando ele era apenas um deputado do “baixo clero”, pouco conhecido. É uma posição de quem teve oportunidade de ver tudo o que ele fazia e falava em tempo real, os discursos, os vídeos que ele próprio divulgava, o que pensava, como agiam os seus apoiadores, e como a coisa foi crescendo até chegar onde chegou.

E, se tenho algumas certezas nisso tudo, são as seguintes:

1) Bolsonaro está longe de ser um “novo” na política, que merece um voto de confiança “pra ver no que vai dar”. Ele é um político profissional já há ininterruptos 30 anos – quase a minha idade. Não é alguém desconhecido, portanto. Para se ter uma ideia de como ele será na presidência, basta olhar o que ele já fez – ou deixou de fazer.

2) As sua posições extremistas não são fatos “isolados”, declarações infelizes pinçadas aqui e ali no “passado” dele. São exatamente como ele sempre pensou, o que sempre atraiu o eleitorado dele. Foi assim que ele fez sua carreira política. Por mais absurdo que possa parecer, é aquilo mesmo. Se ele parece mais moderado de um ano pra cá, a explicação mais provável é o fato de precisar ampliar o eleitorado para concorrer à presidência. Exatamente como o Lula fez em 2002 (quando virou o “Lulinha paz e amor”), e a Dilma em 2010…

3) O seu discurso sobre o aborto, inclusive, lembra bastante o da Dilma de 2010. Pra quem não se lembra, Dilma tinha dado declarações a favor da legalização do aborto mas, ao longo da campanha, pressionada pelo eleitorado, desmentiu-se e disse que era contra – e como é sabido, depois de eleita, trabalhou a favor. Ou seja, se quer saber o que um político realmente pensa sobre isso, não vale perguntar em época de eleição. E Bolsonaro, antes de cogitar ser presidenciável, já declarou abertamente que cogitou a hipótese de abortar um filho seu (em entrevista publicada por uma revista que, que eu saiba, ele nunca desmentiu), e já chegou até a votar contra um projeto que visava restringir o aborto“garantindo definitivamente a inviolabilidade do direito a vida desde a sua concepção”. Aqui, o link pro resultado da votação, direto do site da Câmara (sem “distorção da mídia” ou o que quer que seja), em que pode-ser ver que Bolsonaro votou de forma idêntica à Jandira Feghali, conhecida militante pró-legalização do aborto do PCdoB:

Voto igual ao da deputada abortista Jandira Feghali

4) Provavelmente sua posição a favor do aborto estava ligada ao fato de sempre ter sido ferrenho defensor de um rígido controle de natalidade – coisa que ainda defende abertamente atualmente, e já chegou inclusive a dizer que “planejamento familiar” não seria uma palavra adequada, visto a necessidade “de um programa oficial voltado ao controle dos índices de natalidade”. Chegou mesmo a usar o plenário da Câmara pra tecer pesadas críticas à Igreja Católica por conta disso (apesar de ter declarado repetidas vezes que “sempre foi católico”, mesmo depois de ser batizado por um pastor evangélico). E, em seus discursos no plenário da Câmara, atacava inclusive o Vaticano (à época, comandado por João Paulo II):

“No Brasil já existe um contingente favorável à aplicação de medidas [de controle populacional] semelhantes, a ideia só não deslanchou ainda pelo temor às reações da Igreja Católica, que, diga-se de passagem, é uma das grandes responsáveis pela miséria que grassa em nosso meio . A Santa Sé deveria respeitar, pelo menos, os brasileiros que acreditam em Deus mas não são católicos.”

Outra vez, chegou a usar o plenário para chamar o Cardeal Arns, que entre outros feitos foi o idealizador da Pastoral da Criança, das singelas alcunhas de megapicareta”, “cara-de-pau”, “vagabundo”, “portador de chaves do inferno”, “insignificante” e “demagogo”. Clique no link para ouvir o áudio [a partir de 5:30]. Alguns dias depois, subiu novamente ao plenário para reclamar de quem se indignou pelo fato de ele, em suas próprias palavras, “ter ofendido D. Paulo Arns“.

5) Outras posições suas já bem consolidadas acerca de temas como porte de armas (e não só sobre a posse, como muitos pensam), guerra civil/morte de inocentes, tortura/respeito a prisioneiros, pena de morte/justiçamento, democracia/autoritarismo, refugiados, e etc,  não só são claramente contrárias à tradição cristã que ele diz seguir, como são fortemente combatidas até mesmo por respeitados líderes conservadores da sua própria religião, como o papa emérito Bento XVI (como pode-se conferir, respectivamente, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). E a naturalidade com que as declara costuma protagonizar momentos de inacreditável surrealismo; sobre a comprovação de que houve execuções na ditadura, recentemente ironizou: Quem nunca deu tapa no bumbum do filho e se arrependeu?“. No mês passado, disse que ensinou todos os seus filhos a atirarem com armas reais, quando tinham apenas 5 anos de idade, e encoraja que isso seja feito pelos pais (apesar de alertado que se trata de ato criminoso):

6) Mesmo suas tentativas de negar as controvérsias mais conhecidas não convencem. Por exemplo, sua declaração de que, se fosse empregado, pagaria menos a uma mulher que exercesse o mesmo cargo que um homem, devido ao fato de ela engravidar (se eu quero empregar você na minha empresa ganhando R$ 2 mil por mês e a Dona Maria ganhando R$ 1,5 mil, se a Dona Maria não quiser ganhar isso, que procure outro emprego! O patrão sou eu!”). Ele chegou a confirmar essa postura em um programa de TV, mas com a proximidade da campanha eleitoral passou a dizer que sua fala tinha sido distorcida, desafiando o jornal a publicar o áudio da entrevista. O desafio foi aceito, e as frases agora podem ser ouvidas de sua própria boca, no link acima. Também não é segredo sua postura de aversão a homossexuais – que, ao contrário do que ele costuma dizer, vão bem além do combate à ideologia de gênero e ao chamado “kit gay”. Seus apoiadores costumam alegar que sua declaração de que “seria incapaz de amar um filho homossexual”, preferindo que o mesmo fosse “morto em um acidente”, seria manipulação da revista que a publicou; ele próprio, no entanto, a confirmou recentemente [a partir de 9:40]. Não é necessário também relembrar o triste episódio de 2014 (que lhe rendeu uma condenação na esfera civil e a pecha de “réu” em dois crimes) em que ocupou o plenário da Câmara para se gabar de ter xingado e empurrado uma deputada há 11 anos atrás, no corredor do Congresso, chamando-a de “vagabunda” que “não merece ser estuprada”. No dia seguinte, explicou numa entrevista: “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria”. Áudios e vídeos igualmente disponíveis nos links.

7) Ele nunca se mostrou, portanto, um pleno defensor da família, da religião, “da moral e dos bons costumes”. Simplesmente, de um tempo pra cá, parece ter achado uma brecha política, percebendo que a população ansiava por alguém que levantasse essas bandeiras, aproveitando-se do clima de descontentamento com Lula e o PT (que ele, acredite, até então elogiava frequentemente) e com a “velha política” em geral. Poderia citar aqui, ainda, links de dezenas (sim, dezenas) de outros discursos em plenário, entrevistas, vídeos, etc, direto da fonte, em que ele mostra a sua sincera opinião sobre os mais diversos assuntos, quase sempre sem que fosse pressionado em relação a isso, sem repórter fazendo “pegadinha”, nada disso. Ele simplesmente é assim, fala espontaneamente.

Há, portanto, duas formas de interpretá-lo: como alguém que foi um “lobo” por quase 30 anos e agora tenta vestir pele de cordeiro, ou como alguém que se vestiu de lobo por 30 anos e agora se redimiu, virou cordeiro. Coincidentemente, depois que decidiu ser candidato a presidente…

8) O fato de as pessoas que cogitam apoiá-lo terem dificuldades em apontar propostas claras dele sobre qualquer assunto pode ter um motivo simples: ele próprio não se importa em tê-las. O que apresenta de concreto, por exemplo, em relação ao importante tema da segurança pública, além do vago “acabar com o Estatuto do Desarmamento” (o qual, comprovadamente, colaborou para frear bruscamente o crescimento de mortes por armas de fogo no país)? Por que, nestes 30 anos como parlamentar do Rio de Janeiro, nunca fez nada em relação à violência do Estado?…

Seu programa de governo, por exemplo, é um power-point de poucas páginas que ele próprio demonstrou não conhecer. Lá está, entre outras coisas, uma proposta de “acima do valor da Bolsa Família, instituir uma renda mínima para todas as famílias brasileiras”. É um projeto, portanto, semelhante ao “Renda Mínima”, do senador Suplicy (do PT), que o próprio PT nunca deu muita bola, talvez por achar radical demais. E, quando isso saiu num jornal, Bolsonaro, que sempre foi um ferrenho crítico do Bolsa Família, ironizou, pensando que fosse uma falha da imprensa. Mas estava lá, no projeto que ele próprio entregou ao TSE.

9) Tampouco ele se mostrou alguém avesso à corrupção. Em entrevista recente, admitiu que sabia que seu partido nas últimas eleições, o PP (do Maluf), recebia propina da JBS/Friboi na campanha, mas que mesmo assim aceitou 200 mil dele na época – e continuou no partido por mais 2 anos. Empregou, de 2003 até o mês passado, ao menos uma funcionária pública tida como “fantasma”, por receber salário como secretária da Câmara (em alguns períodos virou até “chefe de gabinete”), mas que passava o tempo do expediente numa loja de açaí que leva seu nome numa vila praiana. Bolsonaro admitiu que não controlava a sua frequência de trabalho, e nunca soube explicar muito bem qual seria sua função como funcionária parlamentar – que, segundo suas próprias palavras, seria exercida “de vez em quando” em sua própria casa de praia.

10) A sua imagem, portanto, sempre foi a de um político extremista, impetuoso e pouco confiável, como atestavam seus superiores no exército – o próprio general Geisel, ex-presidente militar que ele tanto elogia, dizia que Bolsonaro, enquanto deputado, era um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar” [original, na íntegra, aqui]. Consideravam-no indisciplinado e inconsequente demais, tendo já até tomado prisão por “indisciplina e deslealdade” e, ao que tudo indica, foi desligado do exército após tramar botar uma bomba no quartel. O fato de praticamente não ter conseguido alianças, ou mesmo se manter em partidos que têm visões ideológicas bem parecidas às dele, como o PSC (do Feliciano), do qual ele saiu mesmo estando disparado nas pesquisas, atesta a sua dificuldade em dialogar com quem convive de perto com ele.

Presidente militar Geisel sobre Jair Bolsonaro

11) Por que, então, tem tanta gente boa apoiando ele? Devido a alguns fatores: a ansiedade gerada pela crise política e de valores, a ignorância política de boa parte da população, o fenômeno da dissonância cognitiva (dificuldade cerebral em admitir fatos que desmentem algo em que você acredita, que escolheu), e sobretudo o seu enorme carisma. Sua capacidade de comunicação é realmente impressionante. Quase hipnótica, eu diria… mas não quer dizer que ele fale a verdade. Apenas que pode ter uma grande convicção em contar mentiras. Da mesma forma, aliás, que outra figura igualmente carismática, que está no “outro lado”…

12) Que ele, se eleito, vai mudar o país, parece ser consenso. Mas, ao longo desses 7 anos, nunca consegui encontrar um só motivo sequer pra acreditar que essa mudança será para melhor, em qualquer aspecto imaginável. E acredite: nada está tão ruim que não possa piorar. Vejamos o exemplo da Venezuela – e, adivinhem, ele também era fã do autoritário Hugo Chavez, que começou aquilo tudo por lá. [Chavez] é uma esperança para a América Latina, gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. […] Não sou anticomunista. Não tem nada mais próximo do comunismo que o meio militar”, ele disse à época. Sim, é isso mesmo. E sua fase chavista não foi registrada só pela mídia, mas também por discursos na Câmara.

Em absolutamente todos os aspectos que pesquisei (priorizando sempre, como pode-se ver, as fontes originais, com o mínimo de interferência midiática), não consegui encontrar uma só posição de outro candidato à presidência que fosse pior que a de Bolsonaro – e olha que pesquisei bastante, sobre todos eles. No máximo, encontrei alguns que, num ponto ou no outro, podem ser equiparados a ele. Mas, no conjunto da obra, ele parece realmente ficar muito abaixo do pior dos outros. Porque ele vai contra o que há de mais básico, mais essencial em termos de valores. Contra pontos, a meu ver, inegociáveis

Esta é, claro, a minha posição. E estou aberto a discussões, desde que feitas de forma racional e honesta – como sempre estive, ao longo de todos esses anos de análise. Mas, por enquanto, a quem pedir a minha opinião, só posso dizer algo: se você quer evitar ter de escolher entre ele e o PT, e a verdadeira guerra que acredito que o embate entre os dois provavelmente irá gerar na nossa sociedade (continuando mesmo após o resultado das urnas), temos que lutar para que o PT não esteja no segundo turno.

Porque Bolsonaro, muito provavelmente, vai estar…

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Michelle disse:

    Como sempre:lúcido,sensato,inteligente e competente em suas abordagens. Obrigada pelo texto!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s