Direita, esquerda… ou humanista?

Muitas vezes me perguntam: “mas afinal, você é de direita, de esquerda, ou em cima do muro?” Eu poderia até responder de forma simples, me enquadrando em uma dessas definições, e encerrar a conversa. Mas a grande verdade é que isso não bastaria pra explicar minha posição.

Creio que posso me definir como humanista: alguém que tenta por o ser humano no centro (sem, contudo, desprezar as outras espécies). E, quando há vários interesses em jogo, que sejam privilegiados os mais indefesos – principalmente quando eles são muitos. É uma posição que parece “de esquerda”, mas não necessariamente: a esquerda, por conta do marxismo, tende a separar a sociedade em classes, e a incentivar a luta entre elas. Para mim, a vida de um “macho hétero” rico vale tanto quanto a de uma mulher homossexual pobre – apesar dela estar, em nossos tempos, numa situação social infinitamente pior. Há de se lembrar que privilégios sociais, apesar de importantíssimos, não são tudo – o homem rico pode ter muito mais tendências ao suicídio do que a mulher pobre, por exemplo. E, neste ponto, também merecerá toda a nossa solidariedade.

A meu ver, a esquerda não admite em seu discurso oficial, mas na prática nem sempre dá a atenção devida a quem não faz parte das classes pelas quais ela luta. O coletivo, as massas, pra ela vale muito mais que o individual; e o material, o econômico, também (não é à tôa que Marx definiu seu pensamento como “materialismo histórico”). O problema é que as classes que hoje são tidas como “oprimidas” podem rapidamente passar a serem definidas como “opressoras”, como aconteceu com a burguesia, na Revolução Francesa, ou com a bancada evangélica, na nossa sociedade atual. E, aí, o aliado que você ajudou a colocar no poder pode virar seu inimigo do dia pra noite… é assim que funcionam as lutas, as guerras.

E, nessa caminhada, acabei descobrindo que a Doutrina Social da Igreja Caólica prega exatamente o que eu acredito, e chama isso de “Humanismo Integral Solidário“. Que, apesar de não serem valores exclusivos do cristianismo, são obrigatórios a um pensamento cristão coerente. E fui me identificando cada vez mais, à medida em que ia conhecendo aqueles princípios – que muitos infelizmente não entendem, e teimam em tentar enquadrar no campo da direita capitalista ou da esquerda socialista. Esse humanismo solidário, na verdade, veio bem antes da do que chamamos de “esquerda” e de “direita”, já está aí há muito tempo. Mas tem pontos em comum com uma e com outra, embora nem sempre parta do mesmo princípio: é contra o aborto, mas não pelo moralismo conservador de quem acha que a mulher deve ser humilhada por suas escolhas sexuais, e sim por entender que o ser humano que ainda está dentro do útero é o mais indefeso de todos. É contra o direito de você matar um assaltante desarmado, mas não por achar que o bandido seria uma simples vítima da sociedade, e você um privilegiado – e sim por pensar que a vida dele vale mais que o seu celular. É contra a ideologia de gênero, por entender que há diferenças importantes, genéticas, entre o homem e a mulher, entre o hétero e o LGBT; mas não porque acha que um deles seja melhor que o outro. É a favor da reforma agrária, para que se partilhe terras imensas nas mãos de milionários que não produzem nada, enquanto há tanta gente morrendo de fome – mas acredita que isso deva ser feito de forma organizada, e não por invasões armadas, violentas, que pregam a defesa de umas vidas ceifando outras…

São princípios que podem parecer utópicos, mas que a meu ver, na prática, já se demonstraram não só realizáveis, como com uma força gigantesca. Gandhi, Luther King e Mandela o aplicaram no século passado e tiveram resultados surpreendentes, incontestáveis, mais do que muitos outros “revolucionários”. Levaram uma boa dose de pacificação a conflitos que pareciam eternos, infindáveis. O grande desafio do Humanismo, na verdade, não é de eficácia: é de engajamento. É preciso muito mais que algumas lideranças para por um projeto humanista em prática – é preciso que todos se comprometam. E, para isso, será preciso admitir que você, na verdade, faz parte da “mesma classe” do seu inimigo, que são todos humanos, dentro do mesmo barco. Que sua luta não será contra ele, mas contra ideias que os desnivelam… Que não há “cidadãos de bem X vagabundos” ou “opressores X oprimidos”… que há todos lutando por todos.

Quando estivermos dispostos a abrirmos mão de nosso “lugar de luta”, de nossa coletividade de classe, em prol de algo muito maior, poderemos conseguir resultados que fujam da velha dialética de conflitos eternos. E eu gostaria, imensamente, que todos que se dizem cristãos ao menos refletissem sobre isso, que está diariamente no discurso de todos os papas, de todos os pastores e líderes religiosos realmente sérios, coerentes… Somos muito mais que isso que está aí.

Ao menos, podemos ser!…

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