PT excomungado?

Um argumento bastante forte (pra não dizer intimidatório) que alguns católicos têm utilizado para influenciar o voto de outros é o “Decreto Contra o Comunismo”, publicado por Pio XII lá em 1949 – o qual, segundo eles, tornaria automaticamente excomungado todos que votassem no PT.

Não sou especialista em direito canônico, mas como católico tenho boas razões para acreditar fortemente que este decreto não só não se aplicaria ao PT, mas também não se encontraria mais válido já há muito tempo. E são elas:

– O Decreto se baseava no Código de Direito Canônico antigo, que foi explicitamente revogado em 1983. Nem o novo Código, de 1983, nem o novo Catecismo, de 1992, fazem qualquer menção a essa excomunhão.

– Dentre membros do clero que teriam o devido estudo e autoridade para falar do assunto, encontrei apenas a opinião de um sacerdote (o Pe. Paulo Ricardo) dizendo, em um vídeo antigo, que o decreto continuaria válido. Mas o vídeo foi retirado do seu site e do canal no Youtube, sendo atualmente disseminado somente por canais não-oficiais. Há anos procuro, mas nunca achei mais nenhuma outra opinião do clero especializado, muito menos de bispos, defendendo esse ponto de vista. Todos são contrários.

– O que era, naquela época, considerado motivo de excomunhão de comunistas, e ainda é hoje, seriam o ateísmo e o materialismo, então implícitos nessa ideologia, o que levariam à “apostasia” (renegar a fé). Todo ateu discorda de pontos importantes da fé da igreja, por motivos óbvios (lembrando que “excomunhão” não quer dizer necessariamente “condenação ao inferno”, mas basicamente a declaração de que alguém não está mais em comunhão com a Igreja).

– Hoje em dia, 70 anos depois, há várias outras formas de comunismo / marxismo, não necessariamente ateístas; seus próprios críticos diriam que a forma mais comum de marxismo hoje seria o que chamam de “marxismo cultural”. Ora, que eu saiba a Igreja NUNCA se pronunciou oficialmente sobre o marxismo cultural, e muito menos sobre a excomunhão nestes casos.

– A última vez que esse decreto contra o comunismo teria sido utilizado, que eu saiba, foi em 1962, na suposta excomunhão de Fidel Castro (que até hoje é motivo de controvérsia). Nas últimas décadas, não consegui encontrar NENHUM pronunciamento de qualquer autoridade eclesiástica, em qualquer lugar do mundo, de que alguém tenha sido excomungado por ser comunista.

– O PT foi fundado, no Brasil, sob forte apoio da Teologia da Libertação, que lhe deu capilaridade na Igreja. Todos já ouviram falar sobre os embates entre os representantes desta teologia e o Vaticano, mas é importante destacar que, mesmo em toda essa confusão, NINGUÉM aqui do Brasil foi declarado excomungado. Leonardo Boff e Frei Betto, por exemplo, continuam sendo considerados católicos normalmente (Betto inclusive continua sendo frei dominicano), amigos do Lula, apoiadores do PT.

– Alguém poderia argumentar que sendo a excomunhão automática (latae sententiae), não haveria necessidade de declaração de uma autoridade. Ora, seria então um caso gravíssimo de negligência por parte das autoridades eclesiásticas, desde João Paulo II: pessoas influentes em meio ao clero, já excomungadas, estariam levando o maior país católico do mundo a se desviarem da fé de forma grave. Imaginar que os teólogos da libertação e os difusores dessa teologia, que provavelmente conheciam o decreto e suas consequências, foram excomungados, mas mesmo assim continuaram normalmente na Igreja até hoje, seria considerar três papas (João Paulo, Bento e Francisco) e centenas de bispos brasileiros como FORTEMENTE omissos.

– A mistura entre marxismo e cristianismo tem, a meu ver, consequências bastante complicadas; concordo plenamente com as fortes críticas que Bento XVI faz em relação a isso – que foram confirmadas por Francisco. Mas daí a declarar a excomunhão automática de todos que simplesmente votam num partido com inspiração (fraca ou forte) no marxismo, acho bastante forte, sectário, prepotente. Excomungar (ou declarar a excomunhão) de alguém é último caso, é medida extrema. Leigos deveriam ter bastante cuidado ao fazê-lo. Se é que teriam autoridade para tal…

– Por fim, se fôssemos excomungar todos que seguem ideologias materialistas/ateístas, teríamos que excomungar também, por analogia, quem segue o capitalismo liberal ateu de Rand e Mises…

– Ou seja, vote em quem votar, faça obedecendo à consciência, e às orientações da Igreja (se for católico), e não a ameaças ou ao medo de ser excomungado por quem nem mesmo tem autoridade para tal. Não há candidato perfeito, mas há alguns critérios que podem ser avaliados como importantes, segundo a Doutrina Social da Igreja. A CNBB e a Arquidiocese de Belo Horizonte, a meu ver, fizeram bons resumos dos pontos que seriam mais importantes, na nossa sociedade brasileira atual. Para quem quiser, deixo o link: [https://goo.gl/vZmD2A].

E, aqui, um texto da arquidiocese de São Paulo, que explica tudo com bem mais propriedade: https://goo.gl/JnkPL1.

E rezemos… Será importante!!…

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