O bom ateu… e os maus cristãos

Dizem que, depois que morrem, todos “viram santos”, só se fala bem deles. É verdade. Mas creio que, em parte, isso pode se dar também porque a morte facilita o perdão. Não faz muito sentido guardar mágoa de quem já não está mais aqui. Não há razão em desejar o mal de quem, sofrendo ou não, já enfrentou o maior dos obstáculos, atravessou a fronteira mais estrondosamente misteriosa que temos nessa louca existência. Que já não está neste mundo. Que agora está nos olhando de cima, ou de baixo, ou sei lá, de lugar nenhum…

E foi o que se observou há alguns dias, na morte do jornalista Ricardo Boechat. Difícil imaginar outra figura pública que falasse mal de tanta gente, “metesse o pau” em tudo quanto é lado, mas que com sua partida causasse um sincero luto até em seus concorrentes e desafetos. A impressão que se tem é que, por ter sido tão querido e autêntico, perdoá-lo era fácil, mesmo enquanto estava vivo. Depois de morto, então, nem se fala…

É por isso que é de uma tristeza tão profunda verificar que o único grupo que afirma se recusar a perdoá-lo, na mais desumana e insensível das abordagens do acidente, é formado por algumas pessoas que se proclamam portadoras da maior mensagem de perdão que o mundo já conheceu: a de Jesus Cristo. Não são poucos, pela internet afora, os que insinuam, ou proclamam abertamente, que o acidente de Boechat foi uma vingança divina. O mesmo Deus de Jesus, que tanto fala em misericórdia, seria, aos olhos dessas pessoas, incapaz de perdoar um sujeito que se proclamasse ateu – e, pecado dos pecados, se envolvesse em uma briga com uma liderança considerada “ungida”, como o Boechat fez em 2015, com o pastor Silas Malafaia – questão que, poucos sabem, já tinha inclusive sido devidamente resolvida, com direito a elogio de Malafaia ao jornalista.

E tentam se utilizar de passagens de um livro ou outro da bíblia, lembrando que Deus teria, em uma passagem ou outra, se vingado de fulano que não acreditava… O que só demonstraria duas coisas: primeiro, que para essas pessoas não haveria problemas em se dizer “evangélico” mas tomar outros livros como mais importantes que os evangelhos; segundo, que a sede de vingança desse Deus seria mais forte que a sua misericórdia pelas famílias do jornalista e do piloto – incluindo a mulher e as duas filhas pequenas de Boechat, que inclusive são evangélicas.

É uma situação profundamente lamentável, que reflete os tempos estranhos que estamos enfrentando. Fico pensando, aqui dentro, se pessoas que bradam essa doutrina vingativa não têm inteligência suficiente para entender a mensagem central da bíblia, na qual Jesus deixa claro que caberia a nós amar o próximo, e só a Deus julgá-lo definitivamente (e sim, afirmar que o helicóptero de alguém que não compartilha da sua crença caiu por vontade divina, mas não dizer o mesmo quando acontece um desastre com alguém da sua igreja, é um claro julgamento); ou são fortemente manipuladas por lideranças mal-intencionadas empenhadas em distorcer profundamente a mensagem; ou simplesmente são movidas pelos mais funestos sentimentos, e se utilizam da fé somente para disfarça-los de forma hipócrita. Sinceramente, só consigo imaginar uma dessas hipóteses, ou uma mistura de todas elas…

Mas o caso também aponta para algumas ironias que merecem reflexão. A primeira é imaginar que muitas dessas pessoas, tantas vezes, são as primeiras a utilizar aquele bordão de que “não existe ateu num desastre de avião”. O helicóptero de Boechat foi caindo, em pane, por cerca de um minuto – tempo mais que suficiente para uma conversão profunda. Se, como eles tanto dizem, basta aceitar Jesus para se salvar, há de se tomar cuidado ao julgar alguém cujos últimos instantes de vida não se sabe como foram. Pois, se se converteu, ele pode perfeitamente já estar lá, na salvação, só observando quem o está condenando aqui embaixo…

Mas vamos supor a outra hipótese, de que ele por algum motivo não tenha abraçado a fé durante a queda. O que o Deus cristão levaria em conta? Se a fé é um dom, como diz a bíblia, seria justo condenar alguém só por não ter esse dom? Será que tudo o ele que fez em vida não conta? Não contam os valores profundos que herdou da mãe, a generosidade que ficou tão explícita em absolutamente todos os depoimentos de quem o conheceu, a impressionante capacidade de tratar a todos de igual pra igual, “do mendigo ao presidente”, o bom humor capaz de alegrar tantos corações à sua volta – e, principalmente, aquela fome insaciável de justiça? Não foi Jesus, nas bem aventuranças, que disse que quem promover a paz “será chamado filho de Deus”?…

A segunda ironia é que basta uma procura rápida na internet para se dar conta de que Boechat parecia ser o mais evangélico dos ateus. Ele declarava se emocionar profundamente com esculturas e músicas sacras; se casou numa igreja luterana e batizou as filhas nessa mesma igreja. Veja: alguém sem fé que batizou as filhas como evangélicas – e, como se não bastasse, ainda colaborava financeiramente com essa instituição! É sério. Mais ligado à igreja do que muitos que creem.

A não-crença de Boechat não se parecia em nada, a meu ver, com aquele ateísmo adolescente revoltoso que vemos por aí, exalando a prepotência de quem segue aqueles milionários autores best-sellers que fazem do ataque à fé uma bela forma de alcançar sucesso prometendo uma sedutora “libertação” hedonista, individualista, à lá Richard Dawkins. Ele parecia mais ser daqueles que simplesmente não têm uma experiência religiosa profunda na vida, e preferem assumir a falta de fé do que ostentar uma suposta crença fraca, pouco embasada, só por convenções sociais – como tanta, mas tanta gente faz em nossa sociedade. Há tanta gente que usa a fé de forma tão hipócrita que muitos acabam se afastando da religião por pura falta de referências. Situação mais que comum, que se vê todos os dias…

Por fim, gostaria de relembrar uma cena ocorrida ano passado, quando um garoto se emocionou ao perguntar ao papa Francisco se seu pai, falecido recentemente, teria ido para o céu, por ser ateu. É uma cena comovente, sobretudo pelo carinho com que o papa trata o menino. E que, no meu singelo entender, poderia perfeitamente se adequar ao caso de uma filha de Boechat que lhe fizesse a mesma pergunta…

Eis a resposta do papa:

“Aquele homem não tinha o dom da fé, ele não era crente, mas ele tinha seus filhos batizados. (…) Quem diz quem vai para o céu é Deus, mas como está o coração de Deus diante de um pai assim? Um coração de papai. Deus tem o coração de um pai. E diante de um pai, não crente, que foi capaz de batizar seus filhos e dar essa bravura aos seus filhos, vocês acham que Deus seria capaz de deixá-lo longe? (…) Deus certamente estava orgulhoso de seu pai, porque é mais fácil ser um crente, batizar crianças, que batizá-las sendo incrédulo. Se aquele homem era capaz de criar filhos assim, é verdade, ele era um bom homem. Deus abandona seus filhos quando eles são bons?”

PS: Em uma entrevista à Folha de S. Paulo, Malafaia desautorizou seus seguidores que exaltaram a morte de Boechat, dizendo: “não trabalho com um Deus que se vinga porque alguém me xingou”. Entretanto, como foi uma matéria de pouca repercussão, seria interessante que ele  ressaltasse a mensagem em suas redes sociais, algo que não fez até o momento, para por um fim a essa triste situação…

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