O Desarmamento funciona. E ponto.

Gráfico Uol

Em 2003, tivemos a maior redução da história recente do país na taxa de crescimento anual do número homicídios, como se pode observar no gráfico acima. De 1980 a 2003, o crescimento médio era de 8,1% ao ao ano; depois, passou para 2,2%. Isso foi feito graças ao estatuto do desarmamento, que impôs severas condições à posse e principalmente ao porte de armas de fogo, e com uma campanha em que o governo indenizaria quem entregasse livremente armas irregulares para serem destruídas. Esperavam recolher 80 mil, mas conseguiram mais de meio milhão. Foi um sucesso!

Em 2005, tivemos um referendo para decidir se daríamos um passo além, ainda mais radical: proibir quase totalmente a venda de armas e munições a civis. Na época, não havia uma polarização política tão radical “direita X esquerda” como temos hoje, de modo que por exemplo o PSTU (provavelmente por almejarem uma revolução), e uma parte considerável das pessoas de esquerda que eu conhecia, votaram no “não”, enquanto que algumas figuras mais à direita apoiaram o “sim”. Mesmo com a radicalidade da proposta de proibição total, e da sensação de insegurança que ela geraria, quase 40% da população votou que sim, queria proibir tudo. A Taurus (fábrica de armas brasileira) e a CBC (fábrica de munições) tiveram que gastar 5 milhões para financiar a campanha do “não” – o dobro dos gastos da campanha do “sim” e, por exemplo, da campanha à presidência do Bolsonaro no ano passado. Não foi lá tãão fácil assim ganhar – talvez porque a população já estivesse sentindo os efeitos benéficos do desarmamento nos números e no dia-a-dia…

Nos últimos anos, o número de homicídios voltou a crescer. Isso pode ter várias causas; mas, olhando-se para a relação direta que observamos no gráfico entre o número de armas e o número de mortes, não podemos esquecer que desde 2010 o comércio de armas de fogo vem sendo bastante facilitado pelos órgãos competentes. Tivemos 3 vezes mais armas registradas nesse período que no anterior.

Os números deixam claro: quanto mais armas, mais mortes. Mas, mesmo assim, muitos tentam defender que a solução seria ir não na linha do remédio que já deu certo (ampliação das formas de desarmamento), mas justamente no seu oposto, a liberação… Preocupação genuína com a segurança pública? Ou lobby da indústria armamentista?…

É claro que temos questões importantes a debater, a importância da legítima defesa, a dificuldade de acesso da polícia a meios rurais, etc. Em meio à real sensação de insegurança que nos assola, o desarmamento parece uma vã utopia. Mas creio que, hoje, temos números claros que mostram que ele não só funciona, como pode ser uma importante solução.

A lógica é: ao contrário de facas, carros, sprays de pimenta e liquidificadores, as armas de fogo foram feitas com a quase exclusiva função de matar, ou ao menos ferir gravemente. E elas fazem isso com uma eficiência enorme: no século XX, o número de mortes em conflitos armados foi três vezes maior do que em TODA a história da humanidade. Nunca os generais mais carniceiros da antiguidade sequer sonharam em poder matar tanto…

Com uma pistola na mão, qualquer um que tenha o mínimo desejo de ferir alguém ou a si mesmo, ou mesmo de brincar de caubói, como uma criança ou um bêbado ou drogado, pode acabar com uma vida com uma facilidade incrível. Pense numa pessoa extremamente inconveniente, que te torre a paciência diariamente, que você por vezes teve o incontrolável desejo de que estivesse morta. Agora imagine que, num dia difícil, esse desejo possa facilmente se realizar, num piscar de olhos, num momento de ira, naquelas insanidades que às vezes a gente passa. Sem que você precise ter força, bater, sujar as mãos. Só apertando um gatilho…

Não há como prever que só pessoas extremamente equilibradas tenham acesso a armas – como os atiradores do triste massacre de Suzano, que eram ficha-limpa e, a princípio, acima de qualquer suspeita (exceto pelo seu fetiche por armas). Todos têm seu ponto fraco, aquilo que pode te fazer perder a linha nem que seja por alguns segundos – agora, imagine quem bebe, quem gosta de arrumar confusão costumeiramente, de bater na mulher e nos filhos…

E, por fim, os números nos lembram também que, se os criminosos não compram armas de forma legal, eles precisam adquiri-las em algum lugar: ou no mercado negro ou então num lugar bem mais fácil, a casa ou comércio de alguém que tenha. Se nos sentimos seguros por poder ter até quatro armas em casa, como quer o governo (pra que isso tudo, meu Deus??), pode ter certeza que, pro bandido que conta com a experiência e o efeito surpresa (ainda mais se nossa arma estiver dentro do tal cofre), isso é uma tentação gigante pra qualquer pivete. Eles têm menos a perder do que nós. Acredite, arriscar a vida já faz parte da rotina deles. Já da nossa…

Desarmar não resolve, mas ameniza. A ideia de ter mais roubos é terrível, mas é bem melhor que a de ter mais mortes nas nossas famílias. Se for pra roubar, que eles roubem com faquinhas, com porretes, ou com nada. Mas que matem menos!…

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